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Chancela a caminho

Com semeadura já em curso, produtores de melancia de Uruana tentam obter o Selo de Indicação Geográfica, que pode potencializar a produção regional Diene Batista*

Fruta que movimenta o campo e a economia de Uruana, no centro goiano, desde a década de 1970, a melancia entrou em fase mais intensa de plantio no último mês, período que deve durar até julho. Por outro lado, quem se antecipou e começou a semeadura em dezembro, já colheu seus primeiros produtos em março. Na Fazenda Pedreira de Santo Antônio, do produtor Carmo Barbosa, 65 anos, o primeiro plantio vai abranger 17 hectares da propriedade. Já o segundo, que começa em junho, deve abocanhar uma área um pouco maior: 20 hectares.

A produtividade esperada, segundo Barbosa, é de 30 toneladas por hectare. “No plantio de agora, a gente aproveita um pouco da chuva e usa uma irrigação complementar para a lavoura. Já no segundo, desde o início, vamos usar a irrigação por gotejamento”, detalha.  O sistema localizado, em que a gota d’água cai próxima às raízes das plantas, aliás, tem conquistado os produtores. “De modo geral, já temos uma escassez grande de água e o gotejamento é uma solução para a racionalização”, explica ele, que produz a fruta em Uruana desde o final da década de 1970.

Da propriedade de Barbosa, a melancia deve sair de caminhões para diferentes mercados consumidores. Os mais próximos são Goiânia e Brasília e o maior, São Paulo. “O produto também vai para o Rio de Janeiro e Espírito Santo e já tem produtor que exporta para Argentina”, aponta, relatando as mudanças que aconteceram nas lavouras, nas últimas décadas. “A irrigação era manual, passou para sistema de sulco, hoje é gotejamento. E com certeza vão surgir novas técnicas. Em 1978, colhíamos melancias de nove e dez quilos, em média. Hoje, a média é de 15, 16 quilos – quase dobramos o peso da fruta”, comemora.

Além das movimentações para o plantio, os produtores também têm articulado a obtenção do Selo de Indicação Geográfica (Selo IG) pela melancia da região de Uruana. A certificação é concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) para identificar produtos de uma determinada região e suas características específicas. Em todo Brasil, 46 produtos já receberam o selo de Indicação de Procedência, o mesmo pleiteado pela melancia de Uruana; e 18 o selo de Denominação de Origem.  Em Goiás, o açafrão da região de Mara Rosa foi o primeiro a conquistar o Selo IG de Procedência, em 2016.


Trabalho conjunto

Uma força-tarefa está mobilizada para montar o dossiê sobre a melancia, que deve ser encaminhado ao INPI pela Cooperativa Agropecuária dos Produtores Rurais e Agricultores Familiares de Uruana e Região (CooperUruana). O supervisor de organização rural da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater), José Araújo de Oliveira, explica que as tentativas de obter o selo se arrastam desde 2009. “O recurso do Ministério da Agricultura chegou a ser liberado, mas voltou. Nós mudamos a estratégia e resolvemos envolver a própria comunidade, o que tem se repetido em outras regiões”, detalha.

Assim, além do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que liberou recursos para o trabalho, técnicos da Emater, prefeitura e instituições de ensino superior, também, estão envolvidos no projeto. No momento, de acordo com Oliveira, as peças do dossiê estão sendo elaboradas. Nele, devem constar informações como origem, história e a tradição da melancia no município. Também é necessário desenvolver a logomarca que será usada no selo e apresentar o chamado Caderno de Uso, que detalha as formas de cultivo da fruta.

Ainda segundo Oliveira, os produtores precisam apresentar o georreferenciamento da região, uma vez que além de Uruana outros 15 municípios irão fazer parte da identificação geográfica: Carmo do Rio Verde, Ceres, Heitoraí, Itaguaru, Itaberaí, Itaguari, Itapaci, Itapuranga, Jaraguá, Jesupólis, Nova Glória, Rialma, Rianápolis, São Patrício e Santa Isabel. “Nessa microrregião, a forma de produzir, o pioneirismo e a tradição são os mesmos”, justifica o supervisor da Emater.

De acordo com ele, a previsão é de que a redação do dossiê seja finalizada até junho. O documento deve ser apresentado ao INPI ainda este ano. Ele calcula que o órgão deve levar, em média, três anos para analisá-lo, pois durante o processo, por exemplo, podem ser solicitadas mais informações sobre a produção da fruta. Mesmo com o trabalho em andamento, a perspectiva da conquista do Selo IG traz a esperança de mais portas abertas. “O selo dá rastreabilidade, uma certeza ao consumidor de que aquela melancia é de Uruana. Ele vai fidelizar mercado, vai agregar valor, o que gera melhoria de renda”, anima-se.

Outros produtos

Além da melancia de Uruana, outros produtos goianos estão em busca do Selo de Indicação Geográfica (Selo IG), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), como informa o supervisor de organização rural da Emater, José Araújo de Oliveira. São eles: o polvilho e os derivados da mandioca da região do Cará, em Bela Vista; o mel do Cerrado, produzido no norte goiano; o queijo cabacinha das nascentes do Araguaia; e a banana da região de Buriti Alegre.

* Colaboração para a Revista Safra

Reportagem publicada na edição de abril da Revista Safra, a partir da página 28.

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