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À espera de mais uma supersafra de soja

Com ajuda do clima, a expectativa é de bons resultados nas lavouras, motivando o produtor segurar a antecipação de vendas à espera de melhoria de preços no futuro 

André Passos*

Ao contrário da safra brasileira de soja 2015/2016, que atrasou em virtude das condições climáticas adversas, o plantio da safra 2016/2017 caminha em ritmo acelerado. Novamente, a expectativa é de recorde com um ambiente melhor no que diz respeito ao clima. A movimentação no mercado internacional é o que vai definir se o produtor terá bons resultados também nos preços. Ao que tudo indica, as cotações do grão devem ter preços melhores nos próximos meses, o que tem feito o ritmo de comercialização antecipada cair ao menor nível dos últimos cinco anos.

A produção norte-americana superou todas as expectativas, podendo chegar a 119 milhões de toneladas. Deste modo, o sucesso do produtor brasileiro está amarrado a uma série de outros fatores como um mercado ainda demandante e o insucesso das safras argentina e paraguaia, que pode vir por meio do fenômeno climático La Niña.

A produção argentina está estimada em 57 milhões de toneladas e a paraguaia em 9,2 milhões de toneladas. Estimativas para a produção brasileira de soja variam entre 100 milhões a 105 milhões de toneladas. A consultoria Agência Rural (AgRural) espera 100 milhões de toneladas. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), aponta 102 milhões de toneladas para safra brasileira. A Consultoria Safras & Mercado diz que serão 103,50 milhões de toneladas e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) 104 milhões de toneladas. “Com clima favorável, o volume da safra de soja de 2016/2017 poderá ficar perto das 105 milhões de toneladas”, completa a lista de estimativas o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Hélio Sirimarco.

A balança está mais positiva para o futuro, diz o analista de soja da Consultoria Safras & Mercado Luiz Fernando Gutierrez Roque. “Tendo problemas na América do Sul [Argentina e Paraguai], vamos ter força positiva em Chicago [Bolsa de Chicago (CBOT)] podendo levar o bushel [aproximadamente 33 quilos] para bem acima dos 9,50 dólares. Nos próximos meses, vamos trabalhar em uma linha de 10 dólares a 10,50 dólares o bushel”, calcula. No fim da primeira quinzena de novembro a cotação estava entre 10,30 dólares e 10,50 dólares o bushel, um bom momento para negociar, segundo o especialista.

De todo modo, a safra de soja deve responder por um porcentual entre 46,6% e 48,8% da safra total de grãos neste ciclo 2016/2017, que deve ter um aumento de 15,6% em comparação à última (2015/2016), o que leva o Brasil à possibilidade de produzir 215 milhões de toneladas de grãos, contra os 186 milhões de toneladas da passada, segundo expectativa Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Outro resultado projetado pela Conab indica também crescimento da área plantada de 2,3% ou um total de 59 milhões de hectares cultivados com grãos no País. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula 209,4 milhões de toneladas para esta safra.

O plantio da safra brasileira de soja havia alcançado os 53% da área prevista já na primeira semana de novembro e, naquele período, já estava em reta final em Mato Grosso e no sudoeste de Goiás. Por outro lado, no Rio Grande do Sul apenas 10% havia sido cultivados. No Norte do País o plantio só agora deve ser iniciado com maior força, de acordo com o responsável pela Comissão Nacional de Cerais, Fibras e Oleaginosas da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Alan Malinski.

O analista de soja Luiz Fernando Gutierrez Roque, observa que esta safra caminha para um cenário melhor que o esperado apesar de falta de umidade no Norte e Nordeste do País. Mato Grosso do Sul, Goiás e Mato Grosso devem colher, respectivamente, 7,8 milhões de toneladas, 10,4 milhões de toneladas e 29,9 milhões de toneladas. Considerando a mesma sequência, estes Estados comercializaram 23%, 29% e 34%, por meio de contratos antecipados nesta safra 2016/2017. Na safra anterior, os números foram: 39%, 54% e 46%. Da safra anterior, estes Estados já comercializaram 95%, 97%, e 98%.

Diante das expectativas de preços mais promissores no futuro, as vendas antecipadas de soja no País referentes à safra 2016/2017, aumentaram apenas 5% em quase 60 dias, diz Sirimarco, subindo de 20% em 9 de setembro para 25% registrados no dia 4 do mês de novembro. Segundo a Safras& Mercado, a média histórica da comercialização no início de novembro é de 30%, sendo que em 4 de novembro de 2015, durante o ciclo agrícola de 2015/2016, a comercialização atingia a 41% do total.

“Em relação aos preços da soja praticados atualmente pelo mercado em Mato Grosso, por exemplo, quem vendeu a oleaginosa em julho deste ano para entrega em março de 2017, conseguiu receber R$ 71,00 pela saca, em média. Mas quem deixou para negociar agora, não deve receber mais que R$ 61,00”, informa o vice-presidente da SNA.

O empresário rural goiano, do município de Mineiros, a cerca de 430 quilômetros de Goiânia (GO), Rogério Vian, negociou apenas 5% da safra antecipadamente este ano a um valor de R$ 72 a saca. “Só tivemos um curto período com esse preço. Depois caiu para R$ 61 a R$ 62 e ficou nisso”. No mesmo período da safra 2015/2016 o volume comercializado no mercado futuro era de 40% negociados na casa dos R$ 62 a R$ 65. “Temos que considerar ainda que o dólar estava bem mais valorizado naquela época”, diz Vian. 

Demanda continuará aquecida

No que depender do mercado, o responsável pela Comissão Nacional de Cerais, Fibras e Oleaginosas da CNA, Alan Malinski, avalia que a China continuará se mantendo como boa compradora, além de outros países que vêm substituindo o uso do óleo de palma por óleo de soja. “Quanto à expectativa de que os Estados Unidos ponham embargo nos produtos chineses, causando desestabilização neste país, ainda é um ponto que requer mais análise e tempo”, completa Malinski.

No final da primeira quinzena de novembro, o mercado de commodities agrícolas esteve bastante movimentado pela eleição do novo presidente dos EUA e pelos novos relatórios mensais de oferta e demanda da safra 2016/2017 no Brasil, da Conab, e, sobretudo, dos EUA, divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês).

No momento, diz o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Hélio Sirimarco, a demanda está voltada para o mercado norte-americano, onde há maior disponibilidade de soja. A safra brasileira 2015/2016 (ciclo agrícola anterior) está comercializada em mais de 90%, ou seja, a disponibilidade do produto no Brasil é pequena.

Foco na lavoura

Ainda que acompanhe as movimentações do mercado, o produtor rural brasileiro está atualmente mais preocupado em terminar o plantio e acompanhar o desenvolvimento da safra. Capitalizado com o resultado da última safra, ele não se sente pressionado a vender a safra nova. “Com certeza ele está esperando por condições melhores de mercado”, explica o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Hélio Sirimarco.

O reflexo disso é que os preços baixos da soja mantêm o produtor fora do mercado. Esses preços baixos estão ligados a três fatores, segundo o vice-presidente da SNA: a previsão de uma safra recorde da oleaginosa nos Estados Unidos, que está praticamente colhida; o plantio do ciclo agrícola 2016/2017, que se encontra em estágio mais adiantado, devido às boas condições climáticas deste ano; e a valorização do real, que faz com que a commodity brasileira perca competitividade no mercado internacional.

O produtor, então, pode aguardar mais para comercializar sua safra, apesar de não haver garantias de melhoras de preços no futuro. Mas isso gera outro problema: a concentração de venda após a safra. “O preço pode não ser favorável. Pior ainda. Não é só o Brasil que tem perspectivas de safra recorde. O mundo deverá colher 335 milhões de toneladas no período de 2016/2017”, observa Sirimarco.

* Colaboração para a Revista Safra 

A íntegra desta reportagem está disponível na edição de dezembro da Revista Safra, a partir da página 20.

Foto: Carlos Costa

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